"Por ter-se de relance visto de corpo inteiro ao espelho, pensou que a protecção também seria não ser mais um corpo único: ser um único corpo dava-lhe, como agora, a impressão de que fora cortada de si própria. Ter um corpo único circundado pelo isolamento, tornava tão delimitado esse corpo, sentiu ela, que então amedrontava-se de ser uma só, olhou-se avidamente de perto no espelho e disse-se deslumbrada: como sou misteriosa, sou tão delicada e forte, a curva dos lábios manteve a inocência.
Pareceu-lhe então, meditativa, que não havia homem ou mulher que por acaso não se tivesse olhado ao espelho e não se surpreende-se consigo próprio. Por uma fracção de segundo a pessoa via-se como um objecto a ser olhado, o que poderiam chamar de narcisismo mas ela chamaria de: gosto de ser. Encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não imaginei: eu existo."
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"Através dos seus graves defeitos - que um dia ela talvez pudesse mencionar sem se vangloriar - é que chegara agora a poder amar. Até aquela glorificação: ela amava o Nada. E aquelas quedas - como as de Cristo que várias vezes caiu ao peso da cruz - e aquelas quedas é que começavam a fazer a sua vida. Talvez fossem os seus apesar de que cheios de angústia e desentendimento de si própria, a estivessem a levar a construir pouco a pouco uma vida. Com pedras de material ruim ela levantava talvez o horror, e aceitava o mistério de com horror amar o Deus desconhecido. Não sabia o que fazer de si própria, já nascida, senão isto: Tu, ó Deus, que eu amo como quem cai no nada."
Clarice Lispector in Uma aprdizagem ou o livro dos prazeres
terça-feira, 14 de abril de 2009
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