quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A viagem

Não sei como cheguei até aqui, mas sei que posso e devo voltar atrás... Olho para o caminho de regresso com a certeza que o vou percorrer sozinha, mas com menor sofrimento do que talvez fosse suposto... Sem pena, nem ponta de arrependimento. Eu sei... Fui eu e só eu que fiz a aquela escolha. Fiz a minha mala carregada de ilusões, sem falsas expectativas e principalmente pensando numa longa caminhada.... E assim foi... Fiz questão de deixar de lado os meus sapatos de salto alto (sem dúvida mais elegantes) e calcei as minhas botas todo o terreno esperando usufruir de toda aquela paisagem florida, perfumada e sedutora. No entanto sabia que não seria fácil (nunca é). Mas pensava estar preparada para os espinhos inerentes, os desafios, os dias de calor devastador e as chuvas gélidas de Inverno. Não queria apenas os raios de sol... Podia mesmo encontrar um deserto sem água mas se ali tinha chegado seria porque assim o tinha querido e apenas eu teria de arcar com a mina própria escolha. No entanto, a viagem a que me propus com todo o meu corpo e energias, naquele dia levou-me por caminhos nunca antes visitados. Foi por minha decisão que peguei na chave e entrei... Tudo estava como deveria ser... Perfeito talvez... Repentina e estranhamente perfeito... Cores harmónicas, formas perfeitas, cheiros agradaveis,... Sentia-me a caminhar por areias movediças e queria mais... Não me sentia segura naquele jogo de aparência e resolvi colher um fruto das suas árvores... Trinquei e de repente aquele cenário paradisico transformou-se num cenário negro... Vi-me diante de um cenário camaleónico adaptável a todas as situações... Delicado quando confrontado com a fragilidade, sedutor quando confrontado com a beleza, agressivo quando confrontado com a violência... Senti-me perdida, mas segura. Segura de que ali não queria estar... Regressei... Abracei com todas as forças os cenários meus velhos conhecidos. Negros talvez, frageis, cambaleantes, mas sem vestimentas, sem capas, sem falsos ornamentos.... Quero-te a ti... Sim a ti talvez cinzento, sofrido, amaralecido pelo tempo, fustigado pelas ventanias dos dias de Inverno, mas também aperaltado pelas flores que soubeste cuidar e regar... Quero-te a ti. Sol de Verão e chuva de Inverno. Cheiro de rosas, cheiro nauseabundo. Vermelho vivo, cinzento triste. Pele macia, rugas de cansaço. Rosa suave, púrpura misteriosa. Escolhi-te a ti... Tal e qual como és...

4 comentários:

blindness disse...

Numa eterna viagem estivémos, numa eterna viagem estamos, numa eterna viagem estaremos, talvez, um dia, quem sabe. Dela regressámos, dela regressaremos, talvez, um dia, quem sabe. Às vezes a vida passa por nós, que sentados estamos à beira da estrada, vendo-a passar. Outras vezes largamos amarras, por um momento, e sentimos a sua força arrebatadora, inabalável, e pensamos o quanto gostaríamos de ser assim. Apenas para regressarmos, cabisbaixos, ao nosso lugar de espectadores. Ou para aí começarmos, finalmente, o nosso verdadeiro trajecto... talvez, um dia, quem sabe...

Gostei do teu texto, da imagem emocionada de ida e de regresso que me transmite. Mas gosto também da busca incansável que trespassa os teus textos, a busca de algo que não se pode expressar de forma coerente, talvez por não se saber definir, talvez apenas por não existir, de facto. Julgo ver nas tuas palavras a mesma busca que em alguns dias julgo ler nas minhas, repetidas e reescritas um número infinito de vezes.

Comecei por ler o último terço do texto, não sei porquê. Alguma palavra que me prendeu a atenção, julgo. Fiquei com ideia de que falavas de alguém, de um outro alguém... Depois li-o do início, e acabei-o convicto de que esta seria uma viagem mais geográfica, afinal de contas. Uma mera transição de lugares, nada mais. Carregada de ilusões, sonhos, devaneios, ambições... como tu mesma dizes... Dir-me-ás, se estiver enganado. Mas seja como for, acredito que estamos, sempre, inevitavelmente, em constante viagem.

Beijos.

Patricia disse...

É maravilhosa a capacidade que temos de nos surpreender pela positiva, sempre que nos propomos a dar um bocadinho de nós aos outros, mesmo que de forma um tanto ou quanto abstracta. Adorei o cenário "pintado". Lindo...

Beijos grandes**

s. disse...

Blindess: Verdade ;) A busca é realmente um dos elementos vitais deste meu texto (e como tu bem sabes de muitos outros). Acho que a mesma é, e deverá ser sempre, um elemento primordial da nossa caminhada... A insatisfação, a luta, o auto conhecimento... Essa procura transporta cada um de nós para uma "vaiagem" alucinante e frenética recheada de doces e amargas surpresas. Mas, só realmente encaramos e usufruimos dela se nos picarmos nos espinhos que encontramos pelo caminho sem medos... Também tens razão quando dizes que por vezes a força arrebatadora da "viagem" se faz sentir levando-nos a soltar as nossas prisões interiores para depois regressarmos passivos vendo como os outros se movem no cenário quotidiano do nosso dia á dia... São aqueles de quem gostamos que nos levam a soltar as amarras porque sabemos que estarão sempre lá para nos ajudar a cuidar das feridas provocadas pelos espinhos ;) Bjka enorme ;)

Patica: Também não posso deixar de concordar contigo... Tu sabes :P Acho mesmo que o melhor da vida é a partilha... Dar o que temos de melhor e receber... E sim, devemos exigir sempre o melhor de forma implacável... Porque quem dá o melhor de si, merece ver plantadas no seu jardim lindas flores... E há tanto caminho para percorrer... Tantas flores para plantar... Porque é tão bom dar a quem queremos e sabemos que também plantará as suas flores no nossso jardim ;)Bjka grande grande grande

NoSurprises disse...

Voltar aos pontos familiares da nossa existencia é uma das etapas mais dificil de se fazer. normalmente aceitamos os desafios e as viagens cientes do conforto da vida que conhecemos de cor e deixamos para trás. São as escolhas... Mas que interesse teria se não nos aventurásse? Mais vale mil viagens linda...que um dia acordar com a duvida de uma escolha que não se fez....

Gostei do texto e acredito sinceramente que tem muito de ti e da forma como reflexionas a tua própria vida...que disfrutes da catárse.

Jokas deste amigo