sábado, 10 de março de 2012

Caminho...

Entro.

Olhos. Tantos olhos abertos...

Pestanudos, grandes, pequenos, atentos, vivos, vazios, brilhantes,tristes,... Olhos. Eu só queria respirar um pouco, planear e pensar. Mas, apenas inspirei e uma torrente de palavras saiu. Eu falava e aqueles olhos estavam pregados em mim. Mãos. Eram mãos firmes, displicentes, calmas, irrequietas,... Tanta vida naquela sala. Tantos olhares. E quem estava lá era eu. Eu? Sim, eu. Caramba e nem sequer tive tempo de pensar e controlar. Porquê? ... Lá estava eu. E eles que confiavam em mim e seguiam o meu olhar. O tempo passava e acabei por me me deixar levar. Cada olhar era único e tão especial. Impossivel não me deixar prender. Eu sei. Sei que mais uma vez me estava a prender por aquilo que não se esperava. Mas, se há uma coisa a que não posso resistir é a um olhar. E aqueles eram muitos e diferentes. Sempre acreditei que mesmo quando alguém não fala de si próprio lhe posso ler o passado e o presente na forma como olha para mim. O futuro já não, porque me cruzei na vida daquela pessoa e de alguma forma posso vir a fazer parte desse futuro. Ler o nosso próprio olhar é tão difícil... Impossivel. Daí a impossibilidade de enganar realmente alguém. Os nossos olhos traem-nos, sempre... Mas, voltando ao ponto de partida. Lá estava eu e aqueles olhos. Quando dei por mim deixei-me levar por eles. A nossa relação tinha começado naquele lugar e naquele dia. Não tinha tempo, não podia respirar fundo e pensar. O medo não tinha lugar. Era eu, como sempre fui. Apenas e só eu. Uma missão que me tinha sido confiada. Duvidar do seu sucesso? Talvez. Mas apenas antes da sua concretização. Agora? Agora não havia volta atrás. Sentia que realmente estava a dar e quando damos acredito que o mundo que nos rodeia muda. Falo daquele dar de verdade que só é possível quando realmente se é sem medos, sem máscaras ou controles. Dei por mim a ler em voz alta aquela imensidade de olhares. Antes lia-os em segredo e agora atrevia-me a questionar e interrogar e, mais ainda, a permitir que esses olhos se cruzassem com os meus e também eles me pudessem ler e descobrir. "Os olhos são o espelho da alma". Que verdade nua e crua. Depois de exposta perante aqueles olhares tão diversos não nego que me senti "despida". E depois vieram as perguntas... Saí e abondonei aqueles olhares certa que algo tinha mudado neles e em mim. Sempre desejei fazer e aprender tanto que muitas vezes senti que o que queria e sonhava era tão grande que não me cabia no peito. O meu coração batia e pulsava.. Tinha uma batida tão forte que por vezes parecia que não ia aguentar. Mas naquele dia não só aguentei como "dancei", transmiti e finalmente permiti que me dessem. Agora? Agora caminhava naqueles corredores compridos e frios, onde pessoas falavam e se moviam. Senti que algo se tinha quebrado dentro de mim e que não mais voltaria. Agora estava de novo sozinha e a ameaça lá estava... Temia que se alguém se aproximasse me pudesse levar um "bocado" e me visse na eminência de vestir a minha "armadura". Mas, algo tinha mudado irremediavelmente. Se antes me sentia protegida com as minhas defesas, depois daquele dia elas voltaram-se irremediavelmente contra mim. Sofria por recorrer a elas. Já não as queria. Fazia-me mal. Coloquei-as de lado e sentia-me como uma criança que aprende a gatinhar. Já não tinha medo. Na verdade nunca o tive, apenas necessitava de acreditar que tudo é tão melhor quando usufruimos do nosso único e maravilhoso ser. Ah... E lá estava eu a caminhar por aqueles corredores. Andava, andava... E cada vez mais sentia que mesmo dois minutos a caminhar por um corredor frio nos podem mudar a vida e cada olhar com que nos cruzamos, cada palavra é para guardar, deter e descobrir. Podemos controlar o nosso corpo, mas ele não... O nosso olhar. Sempre preferi um único olhar a milhões de palavras. Muito em breve voltarei a andar por aqueles corredores e muitos olhos voltarão a estar postos em mim. Só eu sei o que vive em mim entre corredor e corredor, passo e passo... Mesmo entre uma caminhada resoluta e decidida algo pode cruzar-se com o nosso olhar. E se paramos? Se paramos ouvimos. E se ouvimos? Arriscamo-nos... ? A quê? A descobrir... O quê?

(continua...)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

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O silêncio é apenas isso... Silêncio. Ou por ser "apenas" isso encerra em si tantos significados, teias, respostas e cores. Pois, para mim o silêncio tem cor, cheiro e textura... Por vezes sinto-a é rugosa com partes ásperas e macias. Por vezes sorri para mim e outras tantas dele tive medo... Tem olhos, nariz e boca. Vive e revive em mim. Por vezes, ultimamente mais do que o esperado, tento abafá-lo, não o ouço, quero amarrá-lo e tapar as orelhas para não o ouvir... Sim, é engraçado mas o silêcio ouve-se. Eu ouço-o... Por vezes bate como as ondas do mar leva-me e faz-me sonhar. Outras deixa-me numa ilha deserta ou repleta de passageiros idesejados que me atormetam e fustigam. Gosto dele. Sim dele mesmo. Do silêncio. Nunca me mente. É cru e nu. Não se pode mascarar, não se veste, nem fala, nem usa metáforas. Está sempre diante de mim. Assim como uma verdade imutavel, verdadeira e incómoda quiçá, mas verdadeira e genuina. Utilizo-o tantas vezes como resposta até mesmo como argumento. Como este que alguns meses apresentei neste meu espaço. O silêncio. Agoro voltei carregada de letras, frases, alegorias e histórias. mas ele continua... Não quero perder o meu guia, não quero deixar de me evadir e olhar de frente para a minha verdade... Ele que nos acompanha em todos os momentos, a quem não podemos mentir...

O silêncio.

"Uma pessoa sabe sempre a verdade, essa outra verdade que é oculta pelas representações, pelas máscaras e pelas circunstâncias da vida."

Sandor Márai, As velas ardem até ao fim

terça-feira, 14 de abril de 2009

Interiores I

"Por ter-se de relance visto de corpo inteiro ao espelho, pensou que a protecção também seria não ser mais um corpo único: ser um único corpo dava-lhe, como agora, a impressão de que fora cortada de si própria. Ter um corpo único circundado pelo isolamento, tornava tão delimitado esse corpo, sentiu ela, que então amedrontava-se de ser uma só, olhou-se avidamente de perto no espelho e disse-se deslumbrada: como sou misteriosa, sou tão delicada e forte, a curva dos lábios manteve a inocência.
Pareceu-lhe então, meditativa, que não havia homem ou mulher que por acaso não se tivesse olhado ao espelho e não se surpreende-se consigo próprio. Por uma fracção de segundo a pessoa via-se como um objecto a ser olhado, o que poderiam chamar de narcisismo mas ela chamaria de: gosto de ser. Encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não imaginei: eu existo."

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"Através dos seus graves defeitos - que um dia ela talvez pudesse mencionar sem se vangloriar - é que chegara agora a poder amar. Até aquela glorificação: ela amava o Nada. E aquelas quedas - como as de Cristo que várias vezes caiu ao peso da cruz - e aquelas quedas é que começavam a fazer a sua vida. Talvez fossem os seus apesar de que cheios de angústia e desentendimento de si própria, a estivessem a levar a construir pouco a pouco uma vida. Com pedras de material ruim ela levantava talvez o horror, e aceitava o mistério de com horror amar o Deus desconhecido. Não sabia o que fazer de si própria, já nascida, senão isto: Tu, ó Deus, que eu amo como quem cai no nada."

Clarice Lispector in Uma aprdizagem ou o livro dos prazeres

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

EU

Quando...

Ninguém te entende, não te consegues explicar...

(E explicar para quê?)

É BOM...

Olhar para dentro e sorrir, afagar o teu ego outrora perdido e agora encontrado...

É BOM...

Quando as nossas certezas e determinações nos dominam e as palavras dos outros nos passam ao lado como uma suave brisa sem provocar qualquer arranhão.

É o EU que fui adubando e que agora finalmente desponta e se fortifica de forma natural e me dá imunidade.

E é tão BOM...

Poder dar o melhor aos outros quando nos conhecemos e confiamos...
Seleccionar, gostar, desgostar, sorrir, criticar, falar alto e praguejar.
Voltar para casa com a certeza daquele EU definido e por definir...
Aquele que outrora andava perdido, agora resgatado...

E GOSTO...

De andar no meio da multidão perdida entre rostos diferentes, desconhecidos e passos apressados...

É BOM...

Sentir o meu EU encontrado no meio da multidão.

Sentir é criar.
Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias. (...) Faz da tua alma uma metafisica, uma ética e uma estética. Substitui-te a Deus indecorosamente. É a única atitude verdadeiramente religiosa (Deus está em toda a parte excepto em si próprio).

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Change!



Voltei...

Ao meu encontro...

Mas será que algum dia cheguei mesmo a partir?

Estou de volta...

Primeiro de tudo...

A mim e para mim.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta...

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!

Alberto Caeiro

Toco em mim e sinto...
Olho no espelho e vejo...
Toco e sinto.
Olho e vejo.

MAS...

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível (...)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Palavras

Descobri um segredo!

Sim... Eu descobri...

O segredo das palavras!

Depois de tanto tempo...
Tanto tempo maravilhada como os outros as empregavam...
Observando como terceiros as utilizavam...
Como se de uma competição se tratasse!
Cada um atropelando-se...
Dando-se a conhecer através de adjetivos, substantivos e verbos...

Eu ali estava...
No meu cantinho olhando, olhando...
De tal forma absorta que me esquecia de partipar naquela guerra semântica!
Mas na verdade eu já era paticipante!
E talvez a mais importante dos participantes!
Eu que ouvia e dava o meu olhar atento...

Mas parecia que não era suficiente...
E eu sabia que não era.
Como queria que os outros me observassem e me dessem o seu olhar se me esquecia de "destapar-me" e dar-me a conhecer?
Sim... mesmo que para isso tivesse de me degladear e entrar na floresta de epígrafes, sinónimos, antónimos e alegorias...
Assim tinha de ser e assim seria!

Agora sim estava prestes a entrar dentro do jogo!

Já não me sentia satisfeita...
Achei que os outros mereciam mais...
E que eu principalmente queria e necessitava mais!
As palavras eram certamente o caminho!
A estrada que me levaria ao universo fantástico a que se chama "conhecimento humano"!
Por vezes tortuoso e complexo mas se não fossem elas como criar laços, como criar fortalezas e amarras?
Como criar portos seguros, provocar arrepios, choques, desprezos e paixões?

O tempo foi passando...

Hoje domino-as e manipulo-as!
Talvez...
Emprego-as e com elas me camuflo...

Entrei finalmente no jogo...
No jogo das palavras!
Quero sempre mostrar as minhas...
Encontrei nelas um amigo, um refugio...

Tornei-me numa contadora de histórias!
Aprendi a conhecer os outros contadores de histórias e a querer conhecer muitos mais...
Hoje as palavras dominam-me, julgando outrora ter aprendido eu a dominá-las...
Faço, crio, recrio...

Crio cenários perfeitos,
Escondo-me e oculto-me por detrás delas...
Utilizo-as de forma entusiasta e segura...
Formo uma linha direitinha composta por letras...
Frases e parágrafos esmeradamente construidos e tão "limpinhos"...

Sinto falta...
Falta daquele meu olhar atento.
Sinto falta do silêncio...

Do MEU silêncio!

Sei que, agora mais que nunca, necessito mergulhar nele.
Mas agora que sou mestre nas palavras...
Não... Não o quero fazer!
Não consigo ou talvez consiga, mas não queria...
Sobreponho-as ao silêncio...
É mais fácil, menos doloroso...

Descobri...

Descobri que viver é tanto...
Tanto mais que palavras...
Tão mais maravilhosamente e dolorosamente real...

Já não vos quero como minhas amigas!
Quero desconstruir-vos...
Poupar-vos...
Mergulhar no meu silêncio...
Não são vocês que sentem, que cheiram, que provam o doce e o amargo, que podem sentir formas, que vibram, que choram e riem por mim...

Já não quero ser contadora de histórias!

Eu QUERO ser personagem principal.


"Tudo isto são coisas, coisas que nós podemos amar. Mas não posso amar palavras. É por tudo isso que não aprecio as doutrinas, não têm dureza ou moleza, não têm cores, não têm arestas, não têm cheiro, não têm gosto, nada têm senão palavras. Talvez seja isso que impede de encontrares a paz, talvez sejam as palavras em excesso. Porque também libertação e virtude, também Samsara e Nirvana são meras palavras. Nada existe que seja o Niirvana; apenas existe a palavra Nirvana."

Hermann Hesse