segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta...

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!

Alberto Caeiro

Toco em mim e sinto...
Olho no espelho e vejo...
Toco e sinto.
Olho e vejo.

MAS...

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível (...)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Palavras

Descobri um segredo!

Sim... Eu descobri...

O segredo das palavras!

Depois de tanto tempo...
Tanto tempo maravilhada como os outros as empregavam...
Observando como terceiros as utilizavam...
Como se de uma competição se tratasse!
Cada um atropelando-se...
Dando-se a conhecer através de adjetivos, substantivos e verbos...

Eu ali estava...
No meu cantinho olhando, olhando...
De tal forma absorta que me esquecia de partipar naquela guerra semântica!
Mas na verdade eu já era paticipante!
E talvez a mais importante dos participantes!
Eu que ouvia e dava o meu olhar atento...

Mas parecia que não era suficiente...
E eu sabia que não era.
Como queria que os outros me observassem e me dessem o seu olhar se me esquecia de "destapar-me" e dar-me a conhecer?
Sim... mesmo que para isso tivesse de me degladear e entrar na floresta de epígrafes, sinónimos, antónimos e alegorias...
Assim tinha de ser e assim seria!

Agora sim estava prestes a entrar dentro do jogo!

Já não me sentia satisfeita...
Achei que os outros mereciam mais...
E que eu principalmente queria e necessitava mais!
As palavras eram certamente o caminho!
A estrada que me levaria ao universo fantástico a que se chama "conhecimento humano"!
Por vezes tortuoso e complexo mas se não fossem elas como criar laços, como criar fortalezas e amarras?
Como criar portos seguros, provocar arrepios, choques, desprezos e paixões?

O tempo foi passando...

Hoje domino-as e manipulo-as!
Talvez...
Emprego-as e com elas me camuflo...

Entrei finalmente no jogo...
No jogo das palavras!
Quero sempre mostrar as minhas...
Encontrei nelas um amigo, um refugio...

Tornei-me numa contadora de histórias!
Aprendi a conhecer os outros contadores de histórias e a querer conhecer muitos mais...
Hoje as palavras dominam-me, julgando outrora ter aprendido eu a dominá-las...
Faço, crio, recrio...

Crio cenários perfeitos,
Escondo-me e oculto-me por detrás delas...
Utilizo-as de forma entusiasta e segura...
Formo uma linha direitinha composta por letras...
Frases e parágrafos esmeradamente construidos e tão "limpinhos"...

Sinto falta...
Falta daquele meu olhar atento.
Sinto falta do silêncio...

Do MEU silêncio!

Sei que, agora mais que nunca, necessito mergulhar nele.
Mas agora que sou mestre nas palavras...
Não... Não o quero fazer!
Não consigo ou talvez consiga, mas não queria...
Sobreponho-as ao silêncio...
É mais fácil, menos doloroso...

Descobri...

Descobri que viver é tanto...
Tanto mais que palavras...
Tão mais maravilhosamente e dolorosamente real...

Já não vos quero como minhas amigas!
Quero desconstruir-vos...
Poupar-vos...
Mergulhar no meu silêncio...
Não são vocês que sentem, que cheiram, que provam o doce e o amargo, que podem sentir formas, que vibram, que choram e riem por mim...

Já não quero ser contadora de histórias!

Eu QUERO ser personagem principal.


"Tudo isto são coisas, coisas que nós podemos amar. Mas não posso amar palavras. É por tudo isso que não aprecio as doutrinas, não têm dureza ou moleza, não têm cores, não têm arestas, não têm cheiro, não têm gosto, nada têm senão palavras. Talvez seja isso que impede de encontrares a paz, talvez sejam as palavras em excesso. Porque também libertação e virtude, também Samsara e Nirvana são meras palavras. Nada existe que seja o Niirvana; apenas existe a palavra Nirvana."

Hermann Hesse

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Hoje


Hoje...

Hoje é o dia!

O TAL dia!

Sábado, dia de Santa Rosa de Lima, dia de lua nova e tempo brusco.

Dia de amores perfeitos!

E porque não? Eles existem!

Não digas que não... Não sejas assim...

Porque não me deixas nem que seja só hoje acreditar na sua existência?

Amores...

Amores de Verão, amores de Inverno, Outono e Primavera.

Amor vermelho vivo, amor prudente rosa calmo, amor verde esperança.

Deixa-me acreditar neles...

Nos amores perfeitos, sim.

Porque não semeá-los, cuidá-los, cultivá-los...?

Hoje...

Hoje é o dia!

O dia em que te vou dar pela primeira vez um amor perfeito...

Porque sim eles existem... ;-)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Think about...

«Apaguem a parte lógica do vosso cérebro, a que diz que um mais um são dois. Abram a mente à possibilidade de que um mais um possa ser quarenta e oito, um Mercedes Benz, uma tarte de maçã, um cavalo azul.»

Natalie Goldberg

quarta-feira, 23 de julho de 2008

A chave perdida

Olhei em volta... Depois de muito tempo parece que pestanejei e os meus olhos ousaram semi-cerrarem-se depois daquela sucessão de acontecimentos mais uma vez assistidos mas não vividos e negados... Talvez para futuras oportunidades, mais uma vez renegadas e existências mais umas vez assistidas mas não vividas... Olhei e senti que a ténua luz que penetrava nos meus olhos (os pouco raios que em momentos de coragem conseguiam entrar) me provocava dor... Os meu olhos ardiam. Talvez por medo... Talvez por vontade... Para no final tudo voltar a ser guardado nessa enorme borbulha cujas paredes (outrora de fina espuma) se tinham desenvolvido transformando-se numa concha de aparência bonita, simpática e talvez agradavel e diferente, mas cujo interior estava guardado sob paredes grossas e intransponiveis... Faceis de chegar, verdade. Fácil de mais talvez... Mas cuja entrada estava selada a sete chaves e quem ousasse pensar em transpor essas mesmas paredes teria de estar sujeito a 1000 anos de sacrifícios e cedências fazendo tudo aquilo que controladamente o mundo fictício dessas paredes pedia... Tonta e pobre concha! Ninguém com o mínimo de amor próprio estaria disposto a fazê-lo... Olhei de novo em volta... De forma mais atenta depois de tantos anos de sono profundo... Olhei pela primeira vez usando dignamente essa palavra: olhar e realmenete ver... Ver e ver de novo... Rodei sobre mim própria... Rodei, rodopiei de forma desesperada e cada vez que rodava via o mesmo e sempre o mesmo! Paredes e mais paredes... Meu Deus! Tinha construido de forma engenhosa e manipuladora uma muralha gigantesca à minha volta... Olhei para cima e ela lá estava persistente.... Mas olhei novamente e a minha muralha não estava fechada! Havia céu, havia luz, risos e gente dolorosamente real... E espaço onde podia voar e não mais sonhar, mas viver o outrora sonhado fazendo-o meu... Mas essse azul do céu estava lá em cima... Tão em cima que para lá chegar tinha de derrubar as paredes tão cuidadosamente construidas em torno de mim... Com o trabalho que me deram! Agora estarei eu disposta a destrui-las? Assim?!? Sem dó nem piedade? Fiz uma pequena viagem ao passado recordando quantos mensageiros disfarçados vieram ter comigo estendendo-me a mão e oferecendo-me as chaves. Ou apenas uma corda para que escalasse as minhas paredes e me pudesse ajudar a libertar... Pensei em fazer crescer o cabelo e fazer uma enorme trança para que um cavaleiro dourado escalasse por ela, tirando a armadura e me fizesse apaixonar e o seu amor me salvasse. Mas descobri que armaduras douradas estão fora de moda, que nem todos (talvez como eu própria) estejam dispostos a escalar tranças sem contrapartidas e nem o amor dos outros fosse a salvação, mas sim apenas o inicio de uma rampa de lançamento a que tivesse de dar provas de ser merecedora... Talvez tenha descoberto que eu também quero! Quero não sei bem o quê, mas caramba QUERO! Sei o que não quero... Verdade! Agora tenho de descobrir o que quero e o único que sei é que quero encontrar as chaves que me roubaram um dia e que me prendem a esta enorme muralha de paredes grossas e altas... Quem tem as chaves? Quero saber... Quem me vem salvar? Olhei de novo em volta... Mas desta vez os meus olhos já não estão semi cerrados... Estão abertos, completamnete abertos! Depois de muitos auto-enganos, renenegações e estalos carinhosamente dados por aqueles que perssistem em ajudar a libertar-me... Os meus olhos estão escancarados... E que vejo eu?!? Ali à minha frente! Tão brutalmente real...

Enorme, luzidia e a poucos centimetros de mim....

É ela? Será?

Sim... Sim? É ela!

Ela unicamente ela!

Uma enorme chave! E bem diante dos meus olhos!

Lá estava ela...

Onde sempre esteve....

E eu que descobri que a chave do meu castelo nunca me foi roubada...

Aqui está ela...

(...)

Bem na palma da minha mão...

quarta-feira, 5 de março de 2008

In to the wild



"I read somewhere how important that is in life not necessarily to be strong, but to feel strong"

domingo, 2 de março de 2008

O mergulho

"Um rio é uma corrente natural de água que flui com continuidade. Possui um caudal considerável e desemboca no mar, num lago ou noutro rio, e em tal caso denomina-se afluente"

Uma imagem não me sai da cabeça... Precorre os meus pensamentos de forma constante e persistente. A imagem de um Rio. Um Rio longo de àguas controladas, correndo de forma desenfreada e fluida até que se depara com os seus vários afluentes... Aí, por um momento, tudo parece parar para depois a sua água, que outrora fora uniforme, inseparavel e coesa, se dividir distribuindo-se de forma porporcional pelos seus vários afluentes. Um rio, efectivamente, caracteriza-se pela fluidez das suas àguas que correm aparentemente pacatas. Hoje acordei como se tivesse nadado horas interminaveis por um rio longo e tivesse acordado exactamente na altura em que me dividiria para me "desdobrar" pelos meus diversos afluentes. Será que de alguma forma poderemos ser comparados a um rio? Com uma estrada com vários atalhos? E se tentamos ir por todos os afluentes e atalhos que se nos deparam pela frente? Podemos dividirmos de forma equitativa por todos eles? Nesse caso, como caracterizar que tipo de rio somos? Que nome dar à nossa estrada? Hoje acordei com a sensação que nadei dias e dias, talvez meses ou anos por um longo rio... Uma jornada cansativa, exigente e longa, mas também onde pude descobrir ora pedrinhas coloridas e belas ora pedragulhos e rochedos que tentaram interceptar-me. Vi peixinhos esgios e com cores apelativas, tubarões e algas... Sinto que me encontro no final deste "Rio" e que perante mim estao varios afluentes... Opto por ir primeiro por aquele que me atrai pela sua constancia... Mas porque não voltar atrás e também dar uma braçadas no outro? Verdade que não é tão constante nem "sólido" mas corre de forma divertida e colorida. Sei que regressarei deste segundo afluente com os olhos cheios de cor e talvez alguns sorrisos de belezas momentaneas... Contudo, o vazio será insuportavel....

Mergulho sem medos, sem olhar par trás. Foste tu o afluente que escolhi. Assumo a minha escolha. Não quero ter tudo. Não quero ter nada. Não quero nadar e provar de todos os afluentes. Quero ser única, enverdar apenas pelo que quero. Assumir o que escolho. Ser assumida por quem me escolhe (...)

sábado, 26 de janeiro de 2008

How much live weight?


Sabes...

Quem vais encontrar

O que vais escutar

O que vais sentir

O que irás fazer

A que vai saber

A que ritmo baterá a tua pulsação

O número de lágrimas

Os segundos que separam a tua respiração

Quem amarás

Quem odiarás

Quem recordarás

Apaga...

Apaga a tua memória viva...

Tudo acabará com um estalar de dedos...

Vive com a tua memória em branco...

Estamos em queda livre

Ela corre atrás de ti...

domingo, 6 de janeiro de 2008

Bicarbonato de Soda

Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus prpósitos todos!

Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconseqüência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!

Álvaro de Campos

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Hoje acordei com sede.

Boca seca...
Alma seca...

Sede desse tal EXISTIR...

E-xis-tir...

Com sofrimento,
Alegria,
Negando,
Renegando,
Escolhendo,
Rejeitando
Sonhando,
Dividindo,...

Negando atalhos.
Escolhendo outros tantos.
Não os justificando...

EXISTIR.
SER.

GOSTAR?!?

Dos nossos devaneios.
Sonhos.
Alucinações.
Meditações.
Risos.
Sorrisos.

Tenho a meu lado o "Bicarbonato de Soda"...
Hoje vou negá-lo.
Hoje escolhi-me a mim.
Sem medos, nem falsas esperanças...
Vou sorrir e chorar...

E-XIS-TIR...

Sabendo que tu "Bicarbonato de Soda" estarás sempre a meu lado...
Refugio da minha cobardia...
Piscando-me o olho...
Sempre com a esperança de nunca te provar...
Chegar ao fim e dizer...
Negei-te e Aceitei-me....

Venci-te "Bicarbonato de Soda"!